Parte 1: Não faça o que todo mundo faz.

Esta é a primeira parte de uma série de dois posts. Veja a segunda parte.

Há quase dois anos, publiquei um post sobre um tema que costuma gerar discussões acaloradas na comunidade de desenvolvimento brasileira: usar português ou inglês para nomear classes, variáveis, e demais artefatos no código. Aliás, este artigo continua sendo o que eu mais gostei de escrever até hoje.

Minha opinião atual continua praticamente a mesma da época. Prefiro que você leia o post completo, mas aqui vai a versão resumida: tente usar inglês o máximo possível, porém vão existir situações nas quais o português faz mais sentido. Decida de acordo com as características do seu projeto e equipe.

Outra coisa que ainda não mudou é a minha opinião de que quem trabalha desenvolvendo software definitivamente deve aprender inglês. Se você tem uma lista de coisas para estudar, remova Kotlin/programação funcional/framework javascript da moda do topo da lista e coloque inglês no lugar.

I mean it.

O que pretendo fazer agora é compartilhar minha experiência ao aprender inglês de maneira autodidata, dando dicas para que a sua jornada seja mais fácil e rápida que a minha.

Este será um guia em duas partes. Nesta primeira parte, vou falar sobre os principais motivos que, em minha visão, dificultam o aprendizado das pessoas.

Mas talvez você ainda precise de convencimento sobre a importância do inglês. Se este é seu caso, a próxima seção é para você.

Por que você deve aprender inglês (SPOILER: não é para “ganhar mais”)

Quando o assunto é o aprendizado de inglês, uma das razões mais citadas é o aumento de renda. Embora existam estudos que sugerem aumento de salário para quem domina o idioma, este não deveria ser o seu maior (ou único) motivador.

Outro argumento bastante usado é de que o inglês torna mais fácil conseguir um emprego. Intuitivamente, parece fazer sentido, embora eu desconheça algum estudo demonstrando isso (fique a vontade para postar um link nos comentários, caso conheça). Como evidência anedótica, acredito que todos nós conhecemos muitas pessoas que são profissionais competentes e não dominam o idioma. Quanto a isso, pode se tranquilizar: sabendo programar minimamente bem, você vai conseguir um emprego mesmo sem saber inglês (excluindo-se, obviamente, empresas no exterior ou cargos em empresas brasileiras que requerem comunicação com pessoas de fora). Poderíamos argumentar sobre a qualidade desses empregos, ou o salário que você poderá conseguir, mas não pretendo entrar neste mérito por enquanto.

Certo, mas… e aí? O que sobra? Colocando da maneira mais simples possível: você deve aprender inglês porque é útil.

O inglês como língua franca

O inglês é, para todos os efeitos, a língua franca da tecnologia. E isto facilita muitas coisas.

Um exemplo: eu gosto muito do blog do Mark Seeman e fico feliz por ele escrever em inglês, mesmo sendo da Dinamarca. Também aprendi bastante coisa com seu livro sobre injeção de dependência. Até onde eu sei, este livro nunca foi traduzido para português, apesar da primeira edição ter sido lançada em 2011 (a segunda edição está prevista para janeiro de 2018).

O criador do Ruby On Rails, David Heinemeier Hansson, também é dinamarquês, o que não o impede de postar em inglês com frequência.

Como estamos no assunto de aprender um idioma, você deve conhecer um aplicativo chamado Duolingo. Pois bem, o fundador e CEO do Duolingo (e também do reCaptcha) é o pesquisador Luís von Ahn, da Guatemala. Embora de vez em quando poste algo em espanhol, o inglês é usado na maioria das comunicações dele nas redes sociais.

Por último mas não menos importante, vou citar o brasileiro Zeno Rocha, referência no desenvolvimento front-end e que se comunica principalmente em inglês no seu site e diversas mídias sociais.

Vamos falar um pouco de Open Source agora. Recentemente eu comecei a contribuir com um projeto chamado Noda Time. Se você der uma olhada na área de discussão do projeto, verá que todas elas são em inglês, apesar de haver contribuidores de diversas países (Brasil, Estados Unidos, Inglaterra e Rússia, só para citar alguns).

Poderia ficar aqui o dia citando exemplos, mas você pegou a ideia. Seria impraticável todos aprenderem os idiomas de todos. Consolidar em apenas um idioma é a solução óbvia.

O inglês como facilitador do aprendizado

Acho que não é difícil convencer alguém de que, pelo menos na área de desenvolvimento de software, há muito mais material em inglês que em outros idiomas. Aliás, eu arriscaria que isto também é verdade para outras áreas.

Uma forma relativamente fácil de demonstrar isso é fazer uma busca no Google ou Youtube em português e depois em inglês, com os mesmos termos, e comparar o número de resultados retornados.

Outro site cuja diferença entre as versões em inglês e português é gritante é a famosa Wikipédia. Por exemplo, compare o artigo sobre o algoritmo de ordenação BubbleSort em português com a versão em inglês. Nem precisa falar muita coisa, certo?

É claro que estes são apenas exemplos bobos, usando uma “metodologia” que não tem nada de científica, mas eu acredito que é suficiente. Também não estou de forma alguma afirmando que não existe conteúdo de qualidade em português - eu sei que existe. Aliás, a própria existência deste blog é prova de que acredito na importância do conteúdo em português.

Mas é inegável que é mais fácil encontrar material em qualidade e quantidade em inglês. Não apenas na forma de tutoriais e blog posts, mas também em livros; assim como o já citado Dependency Injection in .Net, do Mark Seeman, existem muitos outros livros que nunca foram traduzidos para o nosso idioma. Alguns livros são traduzidos, eventualmente, mas a qualidade da tradução muitas vezes deixa a desejar.

E quem consegue entender o inglês falado? Esta pessoa já tem muito mais vantagens, pois pode assistir palestras no Youtube, cursos no Pluralsight e similares, ouvir a excelentes podcasts de tecnologia, e muito mais.

Por que as pessoas não aprendem inglês?

Não é raro vermos matérias retratando o péssimo desempenho do Brasil nos rankings de proficiência no inglês.

Ao mesmo tempo, redes de escolas de idiomas são negociadas por bilhões.

Embora muitas pessoas tentem aprender inglês, poucas conseguem. Por quê?

Há pessoas que têm a resposta na ponta da língua para isso:

  • “Precisa começar a estudar na infância”.
  • “Precisa ter muito dinheiro”.
  • “Precisa morar fora/fazer intercâmbio”.
  • “Precisa ter uma inteligência muito acima da média”.

Eu acredito que estas pessoas estão erradas. Embora essas coisas ajudem, nenhuma delas é essencial.

Vou agora falar sobre o que eu considero os motivos principais que impedem as pessoas de aprender inglês.

Excesso de foco em gramática em detrimento de todo o resto

Durante a faculdade, havia um colega que sempre me pedia ajuda nas provas de inglês, apesar dele ter estudado SETE anos em uma escola de idiomas famosa. E eu sempre comentava: “Cara, mas não te ensinaram isso no curso?” E sua resposta, invariavelmente, era: “Ah, eles não passavam muito vocabulário, era mais gramática).

Agora pense. E se esse meu amigo fosse abordado por um americano na rua perguntando “Excuse me? How do I get to the nearest subway station?”? O que ele iria fazer? Abrir um livro de gramática? Recitar a lista de verbos regulares e irregulares?

Falta de prática

Qualquer pessoa que já estudou algum instrumento musical sabe que não basta frequentar as aulas; é preciso praticar em casa, de acordo com o plano de estudos recebido. Fazer exercícios, treinar escalas, praticar percepção musical, todos os dias.

Músico tocando violino

É claro que a necessidade de praticar não se aplica somente à música, mas também aos esportes, à programação e muitas outras áreas.

Agora, quando o assunto é inglês, algumas pessoas parecem pensar que elas vão aprender por osmose, por contágio, algo assim. Que basta ficar perto do(a) professor(a) por uma (ou na melhor das hipóteses, duas) horas e depois ir embora para casa e não ter nenhum contato com o idioma por uma semana e vão aprender assim mesmo.

Sorry to break it to you, mas não vão.

Não integrar o áudio ao aprendizado (ou integrá-lo tardiamente)

Este é um problema comum na área de TI. Inclusive, eu cometi este erro em uma etapa do meu aprendizado. Como precisamos constantemente ler textos técnicos em inglês, como manuais e documentações, muitos de nós conseguem ter um domínio razoável do inglês escrito ao longo dos anos.

O problema é quando chega a hora de falar, principalmente por conta da pronúncia do inglês, que é totalmente não intuitiva para nós falantes de português.

Na maioria das vezes, sem ter a referência da pronúncia correta, a pessoa acaba “aportuguesando” a pronúncia da palavra. Quantas pessoas você conhece que pronunciam 4Shared como “Quatro Xarédi”, ou algo do tipo?

Outro problema é que a pronúncia do inglês é bastante “imprevisível”. É perigoso você assumir que existem regrinhas infalíveis para a pronúncia e sair aplicando. Você pode até acertar algumas vezes, mas vai errar muitas outras. Veja as três palavras a seguir:

  • Book
  • Door
  • Blood

Agora ouça a pronúncia de cada uma:

É provável que você tenha se surpreendido com a pronúncia de pelo menos uma delas.

Vamos a mais um exemplo. Desta vez, uma palavra que você conhece e usa com frequência: Query. Você sabe a pronúncia desta palavra? Tem certeza? Se você acha que rima com very, então errou:

Resumidamente, pessoas que só tiveram contato com inglês escrito vão inevitavelmente internalizar pronúncias erradas devido à falta de exposição a áudios com as pronúncias corretas, o que acarretará em dificuldades na conversação.

O que fazer então?

Basicamente, o contrário do que foi listado acima. Colocando em uma frase, seria algo do tipo:

Estude/pratique consistentemente (de preferência todos os dias), utilizando uma estratégia de estudos que integre o uso de áudio desde o início, e não privilegia a gramática em detrimento de todas as outras áreas.

Sim, é um pouco abstrato, eu admito. Corrigiremos isso no próximo post, no qual eu vou contar a história do meu aprendizado no inglês, detalhando meus erros e acertos, para que sua jornada seja menos longa que a minha.

Thanks for reading! See you next time!